Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Um beijo de parabéns à UGT


E hoje é dia de festa na Avenida Almirante Gago Coutinho. A UGT faz 35 anos e para o assinalar promove várias acções de protesto contra as políticas deste governo, que tem piorado a vida de tantas pessoas. Ah, afinal não, enganei-me, o aniversário é assinalado no Hotel Altis com umas intervenções duríssimas de trabalhadores e trabalhadoras. Ah, afinal também não, no meio de vários representantes sindicais internacionais, falaram Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social - o tal que até diz umas coisas ponderadas, mas que duvido que as mantivesse se estivesse no governo - e Pedro Mota Soares, Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social e conhecido defensor da causa de quem trabalha. Pela tarde, num debate sobre um novo Plano Marshall para a Europa, teremos ainda o privilégio de ouvir Pedro Roque Oliveira, ex-Secretário-Geral Adjunto da UGT e ex-Secretário de Estado do Emprego do actual governo, portanto mais um grande defensor da causa de quem trabalha.

 

Depois das grandes manifestações que tiveram lugar nos dois sábados passados, há quem as critique porque deviam ter sido isto em vez daquilo, porque deviam ter terminado assim e não assado. Depois vêm os criticados criticar os que os criticaram, a seguir os criticados por terem criticado vão criticar os que os criticaram por terem criticado, a seguir cri cri cri cri, continuam os grilos a cantar. Curiosamente, na boca e na pena de muitas dessas pessoas, a sigla UGT raramente ou nunca existe. Eu também preferia não a usar, era sinal que ela não contava para nada, mas conta, e é por isso que a porrada que damos aos teclados quando criticamos outros por serem medricas, divisionistas ou não erguerem as massas, devia estar dirigida em larga escala a esta organização em que o capital se disfarça de sindicalismo.

 

Como vivemos num país eminentemente católico, o perdão faz parte do nosso discurso cultural, as segundas oportunidades estão aí para serem dadas. A UGT já teve muitas e decidiu nunca as agarrar. Ao invés de, por exemplo, já ter rasgado de vez o acordo feito com o governo e com os patrões, prefere incarnar o papel de um árbitro desvairado que mostra cartões amarelos a torto e a direito mas que se esqueceu do vermelho no balneário, e mais, quando mostra o amarelo ainda pede desculpa.


A UGT é a maior divisora da luta de quem trabalha. O que se comemora hoje é o aniversário da institucionalização da conivência com o retrocesso social e laboral, o fim de qualquer possibilidade revolucionária que ainda existisse na sociedade portuguesa na altura da criação desta coisa. A UGT foi criada para desmobilizar e para dividir uma classe e tem cumprido bem o seu papel.

 

No seu discurso, Silva Peneda disse que a UGT tem sido muito importante para os trabalhadores e trabalhadoras porque negoceia medidas que sendo más para eles, se tornam menos más através da sua intervenção. Se a UGT e o capital fossem um casal, a UGT era a metade que leva porrada cinco dias por semana mas dá muito valor aos dois em que não é espancada, e está disposta a fazê-lo durante toda a vida. E nunca deixará de ser assim: deus criou o homem à sua semelhança e tirou-lhe uma costela para lhe dar uma escrava em forma de mulher; o diabo arrancou uma costela ao capital e deu-lhe o nome de UGT. Eu não acredito nem em deus nem no diabo.

 

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publicado por swashbuckler às 13:58
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Domingo, 27 de Outubro de 2013

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado

 

 

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um actor desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

 

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S.Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

 

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de activistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêem a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...


Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!


"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto 1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.


"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”(1), a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.


"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!"(2) Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir."(3) "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar."(4) Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.


Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.

"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."


Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.


"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.


Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?



Texto lido na manifestação de dia 26 de Outubro

(1) Fernando Ulrich, aqui há dias, demonstrando o carinho que tem pelos juízes do T.C.

(2) Revolução

(3) Sérgio Godinho, "Liberdade"

(4) Fausto, "Uns vão bem e outros mal"

Todos os artigos retirados da Constituição da Repúblia Portuguesa

publicado por swashbuckler às 10:21
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Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

21 de Outubro: Orson Welles e a troika

O dia 21 de Outubro de 2013 ficará marcado como o dia em que aconteceu uma manifestação de apoio à troika. Mas quando os jornalistas chegaram ao local cedo perceberam que esta manifestação era falsa e se tratava de uma acção de divulgação da manifestação de 26 de Outubro, uma manifestação anti-troika convocada pelo grupo Que se Lixe a Troika. Algumas pessoas e jornalistas criticaram esta acção, dizendo que não se brinca com coisas sérias e que o tiro pode sair pela culatra. Mas porque é que à falta de ética diária e violenta do governo e da troika temos de responder sempre com ponderação e lealdade institucional? Estamos em guerra, e é a da sobrevivência.


Foto


Porque é que este grupo decidiu fazer esta acção?

No dia 22 de Setembro mais de uma centena de pessoas esteve reunida em plenário e fechou a data de 26 de Outubro como mais uma data de mobilização contra a troika e o governo. Desde esse dia mais de 900 pessoas já subscreveram esta convocatória e o grupo tem tentado aparecer na imprensa para que o 26 seja divulgado. Ora o que tem havido é um bloqueio por parte de quem decide o que deve ou não ser notícia, este bloqueio foi tão grande quanto evidente: Comunicados de imprensa totalmente ignorados por vários órgãos; notícias que até divulgavam a manifestação mas cortavam o parágrafo que referia a data, a hora e o local; uma acção que incluiu uma conferência de imprensa e uma vaia ao primeiro-ministro com todas as televisões presentes, televisões essas que chegaram a ter no alinhamento dos seus telejornais da hora de jantar esta notícia e que depois, de um momento para o outro, a retiraram, as três.

 

Esta acção de guerrilha mediática atingiu os dois objectivos a que se propunha: furar este bloqueio informativo e provar que uma manifestação pró-troika convocada por 7 pessoas e com um comunicado ingénuo, ganha facilmente o espaço mediático cedido pelas empresas que controlam a comunicação social portuguesa.

 

 


publicado por swashbuckler às 13:47
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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Decimatio

Decimatio, dizimação, era uma das penas aplicadas aos soldados romanos que desertavam do campo de batalha ou se amotinavam. A pena era aplicada a todos, mas só 10% a sofriam no corpo. Os soldados faltosos eram agrupados em conjuntos de dez e, através de sorteio, um deles era apedrejado e espancado até à morte, os restantes passavam a ter rações mais fracas e passavam a viver fora do campo protegido, ao pé das prostitutas e dos criminosos e mercenários que acompanhavam e auxiliavam os exércitos.

 

 

Um dos generais que mais aplicou a dizimação foi Marcus Crassus, o carrasco de Spartacus, líder da Terceira Guerra Servil, em que cerca de cem mil escravos se revoltaram contra Roma e o seu império. Algumas teses afirmam que foi a utilização deste método que permitiu a Crassus vencer Spartacus, o medo que os soldados passaram a ter do próprio general suplantou o que sentiam pelo seu inimigo.

 

Com um sentido diferente da que lhe deu origem, a palavra dizimação é hoje usada para caracterizar uma devastação, o desaparecimento total ou parcial de algo ou de um conjunto de indivíduos. A direita convive bem quer com o sentido actual quer com o método romano, aliás, utiliza-o como forma eficaz de chegar ou de se manter no poder. Para lá chegar sacrifica internamente alguns dos anteriores líderes e seus apoiantes, para o manter sacrifica grupos de cidadãos que servem de exemplo para que os restantes se sintam afortunados e cooperem ou fechem os olhos a esse sacrifício. A direita fá-lo sem pensar muito, fá-lo porque é inevitável para a sua sobrevivência.

 

 

 

publicado por swashbuckler às 15:24
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