Sexta-feira, 12 de Julho de 2013

Sem medos, Assunção, sem medos...

 

O medo é um instinto básico de sobrevivência. A reacção de Assunção Esteves aos protestos é, portanto, mais do que normal. Não é aceitável, mas é normal, por dentro há muito que ela reagia assim. Por vezes, para sobrevivermos temos de ser bruscos e impositivos. Foi que fizeram os manifestantes nas galerias e foi o que fez a Presidente da Assembleia da República.

 

Diz a Assunção que os deputados e deputadas não foram eleitos para ter medo, para serem coagidos e para não serem respeitados. Perante isto acha que terão de rever os critérios de entrada nas galerias. Muito bem, Assunção, deste a papinha toda para quem te quiser contra-argumentar. Cá vai: os cidadãos do país é que não vos elegeram para vocês os coagirem, os amedrontarem e não os respeitarem. Não o fizessem e não precisavam de ter medo. Simples.

 

 

Aproveitando o balanço. A coisa piora se pensarmos bem na acção deste governo e dos deputados que o sustentam. Desde o início que este governo não faz outra coisa que não seja governar cheio de medo: medo da Troika, medo dos mercados, medo das taxas de juro, medo da dívida, medo da Merkel, medo dos bancos. E já se sabe que as pessoas são frágeis e tendem a dar aos outros aquilo que lhes dão a elas. E foi isto que o governo fez, incutiu a cultura do medo no seu povo, cultura essa que já vem de trás. Raio do salazarismo que continua a acagaçar tanta gente... Ainda assim, o povo vai perdendo o medo e confronta-os onde for preciso.

 

E porque se mantém em funções este governo? Porque o Presidente da República os amedrontou, porque Paulo Portas ficou cheio de medo de perder o élan político, porque Passos Coelho tem medo de desaparecer do poder e do próprio partido, porque Seguro tem medo de não chegar ao poder, porque, todos juntos, se ajoelham e deixar acobardar perante quem nos ocupa.

 

As lutas políticas baseiam-se no medo. O que é a luta de classes? De forma simplista, resume-se ao medo que uma classe tem da outra, ao medo que a outra classe nos retire direitos, influência e posses. O que medeia esta luta é a tal relação de forças tão bem explicada por Marx, e o que distingue as classes são os objectivos mais ou menos humanos. Quando o proletariado se unir de uma vez, o capitalismo imperialista, cheio de medo, recolhe-se como os ouriços caixeiros. Nessa altura bastará pontapeá-lo para fora do caminho tendo apenas atenção para não nos picarmos nas suas últimas defesas.

 

Como reacção e a par do medo, temos a coragem. Tanto o povo como o governo têm tido coragem, apenas com uma diferença: enquanto o povo reaje e projecta a sua coragem contra o mais forte, contra o que o oprime, o governo projecta a sua coragem vingativa contra o mais fraco, contra as pessoas que sujeita a sacrifícios absurdos e a quem rouba felicidade e qualidade de vida diariamente. Precisamos de um governo que enfrente os seus medos, mas que projecte a sua coragem contra a austeridade e contra quem a impõe. Ao invés, e cheios de medo, dizem: "isso das manifestações temos de ver melhor", "isso das greves é capaz de não estar bem assim", "isso das galerias com gente é melhor acabar".

 

Uma vez a Assunção disse-me que adorava ver a Democracia a mexer, o povo a exigir e a propor coisas, disse-me que às vezes se sentia quase anarca, mas isto foi em Janeiro de 2012, ainda havia muita gente com medo do medo. Bons tempos, o tempo do estado de graça, o tempo das poucas manifs, o tempo das poucas greves, o tempo em que ainda não era preciso ter tanto medo do povo. Agora passou de uma quase-anarca a uma quase-nazi. A Simone está às voltas na tumba por ver a sua frase utilizada contra aqueles que ela apoiaria, contra aqueles que ela ajudou a inspirar com as suas palavras.

 

Pois é Assunção, o medo está e continuará a mudar de sítio. Tens duas hipóteses, ou lambes as feridas e vais à luta ou fazes o favor de sair e levar os outros contigo.

 

Durante este texto escrevi a palavra "medo" 28 vezes. Admito, eu tenho medo (29) deles. É por isso que dou o meu pequeno contributo raciocinando, reajindo e lutando diariamente para deixar de sobreviver com eles e passar a viver sem eles.

 

publicado por swashbuckler às 13:58
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 3 seguidores

.pesquisar

.Agosto 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Casas novas

. O Rei

. Diz o roto ao nú

. A quem serve o populismo?

. Um beijo de parabéns à UG...

. Portugal não é a Grécia e...

. 21 de Outubro: Orson Well...

. Decimatio

. Coincidências felizes

. Ah...a adolescência!

.arquivos

. Agosto 2016

. Janeiro 2014

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Janeiro 2013

. Abril 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds