Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

O Rei

Tenho vergonha de chorar, principalmente se for em público. Deve ter sido por isso que fiquei por casa, ontem e hoje, a despedir-me do Eusébio. Em 2013 tive razões de sobra para chorar, quer pelas minhas, quer pelas dos outros. Era escusado 2014 iniciar-se em pranto.

 

Este luto é daqueles irracionais, porque gostar tanto de um clube é irracional, porque gostar tanto de uma pessoa que nunca vimos só porque ela chutava em força e ao ângulo é ainda mais irracional. Mas o inexplicável torna-nos mais leves, mais humanos. Querer explicar sempre tudo dá dores de cabeça. 

 

O Fernando Couto está na igreja, não resistiu a tocar o caixão depois de comungar. Está desde o início com os olhos cheios daquela água salgada chata, marota, a querer escorrer-nos pelas rugas. Mas o Couto é força, contem-se. Também deve ter vergonha. Apetece-me abraçá-lo, eu que tantas vezes o insultei pelas entradas brutas contra os meus meninos de vermelho. Mas desde ontem que é assim, nós, os que gostamos de futebol, fizemos tréguas e juntámos os cachecóis e as bandeiras e concentrámo-nos na Catedral da Luz, a casa do Eusébio. Ele continuará sempre lá, coroado como o Rei que é.

 

 

Os milhares que desde ontem foram à Luz, os que se esticaram pela cidade em aplausos, os que estão à porta do cemitério, encharcados, não deixam margem para dúvidas: Eusébio deu forças ao povo, e o povo quer despedir-se do Pantera Negra. Como escreveu ontem o Goucha, Eusébio elevou o nome de Portugal a um patamar que parecia inatingível, "numa altura em que o país nada mais tinha para exportar que sol e Fátima."

 

E é por isso que as televisões dão quase ininterruptamente as imagens desta homenagem. Não adianta criticar, resta aceitar, ou desligar a televisão. Se há coisas inevitáveis esta é uma delas, já toda a gente sabia que ia ser assim. Eusébio não era apenas um jogador de futebol, era um símbolo de esperança e de muitas alegrias. Fazer directos da viagem da selecção até ao estádio é exagero, mostrar o cortejo de despedida de um deus é sentimento. E serviço público. Não dizemos adeus a símbolos apenas com notas de rodapé.

 

E não se arreliem os que têm urticária com esta coisa do país, do patriotismo, dos símbolos nacionais - eu às vezes também tenho. Eusébio da Silva Ferreira nasceu em Moçambique, no bairro de Mafalala, em Maputo. Português, à força de uma ditadura colonialista que o usou. Jogou no Benfica e em mais clubes do país e do estrangeiro, mas foi com a camisola de Portugal que se fez em mito, em 1966, no Mundial da Inglaterra. Eusébio é dos poucos portugueses que faz desaparecer as fronteiras geográficas e políticas, sem que essa seja a sua luta. Não só a imprensa internacional fez notícia com a morte do Rei, como em variadíssimos países a palavra "eusebio", foi a mais, ou das mais pesquisadas. Quem morreu, foi um dos melhores jogadores da História do futebol, e os melhores podem ter país, mas perdem o direito a ter uma pátria. São do Mundo.

 

 

A televisão de casa está estragada, não dá cores. Ter visto o cortejo fúnebre como se o aparelho fosse de 1966, fez-me lembrar as imagens de um outro cortejo nas mesmíssimas ruas de Lisboa, o de homenagem aos Magriços. Hoje, Eusébio juntou esses dois países, e não é certamente por sua culpa que o país continua a preto e branco. E o povo de Eusébio, ontem e hoje, soube apupar quem lhes rouba as cores: Pedro Passos Coelho, um Primeiro Ministro demasiado parecido com um certo Professor Doutor.

 

Feliz a jogar futebol, foi pela sua felicidade que se sacrificou. Fisicamente, com várias operações e jogos de joelho impraticável; financeiramente, por ter sido proibido de sair do país; politicamente, por provavelmente ter sido obrigado pelo regime a calar a dor do seu povo de Moçambique. E diz o João Semedo: "nunca vi nem ouvi da boca de Eusébio qualquer declaração laudatória da ditadura e, do que me lembro bastante bem, foi da forma entusiástica com que recebeu a independência de Moçambique. E recordo, também, as suas palavras frequentes de apoio e solidariedade às vítimas das desigualdades e da extrema pobreza que mancham o mundo contemporâneo, seres humanos dos quais Eusébio nunca se esqueceu."

 

Quando um dos nossos morre temos o direito de lhe dizer adeus em recolhimento. Mas elas já sabiam que ia ser assim. Despediram-se do marido e pai com os iguais ao lado. Rui Costa, Luisão, Cardozo e Jorge Jesus. Os que sabem que as famílias do futebol sofrem com a distância, com os estágios, com as bolas na trave que os deixam de mau humor, com as lágrimas das finais perdidas. Despediram-se do mito, sem direito a recolhimento, elas compreendem e orgulham-se.

 

Pois é, Rui Costa, Luisão, Cardozo e Jorge Jesus. Junto à cova enlameada que se fechava. Rui Costa, mais um "10" imortal. Luisão, um capitão à Humberto Coelho. E Cardozo e Jesus, até ao fim. Desentenderam-se em público, choraram em público. É futebol. Quem já viveu num balneário entende.

 

 

Tenho vergonha de chorar, principalmente se for em público. Quando morreu o Fehér, estava sentado no sofá, em Viseu. O Miklos caiu no tapete, eu fiquei imóvel e mudo até ele abandonar o campo em direcção ao hospital, ainda havia esperança. Depois subi as escadas e fui chorar para o quarto, chorar à frente da nossa mãe é ainda pior que chorar em público. Entretanto o Miklos não voltou mesmo. No jogo seguinte, contra a Académica, o silêncio mais arrepiante. 65 mil de cartolinas pretas na mão, tapando o vermelho do nosso amor. Ali chorei, chorámos todos, sem vergonha.

 

Dói quando morre um dos eternos, dói quando um dos nossos morre em campo. Quem não gosta de futebol não entende, mas é como se perdêssemos um familiar, dos mais queridos. Pode ser ainda mais doloroso que isso, porque dos familiares ficam as recordações, mas tivemos os abraços, as zangas e os risos, vivêmo-los. Dos que amamos pela camisola só ficam as recordações e as emoções, não são humanos, estão-nos nos sonhos.

 

Guardo o sorriso. O último do Miklos antes de caír, os muitos do Eusébio durante todos os golos. E que bonitos eram os sorrisos do Miklos e do Eusébio. E que bonitos homens eram os dois. O futebol pode ter arte, bailado, força, inteligência, suor. Eusébio tinha isso tudo, e isso fez do Rei um dos jogadores mais belos e fotogénicos de sempre. Nem outra coisa seria de esperar de uma pantera.

 

 

Nas religiões das divindades, os anjos descem dos céus à terra, nas religiões dos Homens, o seu caminho é inverso. Ontem o céu ganhou um anjo negro. Pantera, quando encontrares o Guttman é pedir que ele acabe com a maldição! Continuo longe de qualquer religião, mas tenho deuses na minha vida. Poucos. Eusébio é um deles. Lembro-me do jogo que mudou a minha vida e que passou a ocupá-la com muitas horas de futebol e de Benfica. Em 1992, o Benfica perdeu 2-1 em Barcelona. Desde esse dia comecei a saber de trás para a frente os nomes do César Brito, do Rui Águas, do Paneira, do Veloso, do Schwarz, do Rui Costa e de todos os outros. Nesse dia também aprendi a dizer que o Cruyff fez do Barcelona a minha segunda equipa, ex-aequo com o Académico de Viseu, o da terra. Mas antes deste jogo eu já sabia que era benfiquista, e a culpa era só dele, do Eusébio. Não sou dos que aprenderam a dizer "Eusébio" ou "Benfica" antes de "pai" e "mãe", mas sou daqueles que depois de os descobrirem e de saberem o que eles significavam, nunca mais os deixaram. As horas de futebol são agora muito menos, mas as de Benfica não. Já tentei mas não adianta, nem faz sentido deixar um amor mesmo quando a relação é conturbada.

 

Ontem amparei o choque e o dia seguiu normal e triste de cada vez que o via ali deitado. Hoje não deu para aguentar, não adianta tentar ser forte, só deu para não ir chorar em público. Vou-me arrepender, já sei disso, e essa será uma mágoa que tentarei compensar a cada novo golo d'O Glorioso. É que Eusébio da Silva Ferreira é descrito por todos que com ele privaram como uma boa pessoa, um bom ser humano, e quanto mais gente conheço, mais percebo que as boas pessoas escasseiam. Devia ser obrigatório despedirmo-nos delas o mais perto possível, e eu podia e devia ter estado ali, porque Eusébio é mais grande que.

 

O Rei morreu, viva o Rei! E o Rei é Eusébio, desde "Os Brasileiros" de Mafalala.

 

 

publicado por swashbuckler às 17:40
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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2013

Diz o roto ao nú

Neste artigo do portal do MAS, o Gil Garcia pergunta ao Rui Tavares: mais um partido para quê? Partilho a pergunta mas guardo-a para mim. Mais a guardaria se fizesse essa pergunta com base num texto completamente oco e esquecendo que o Rui Tavares poderia devolver a pergunta ao Gil Garcia, líder - ou coisa que o valha - do mais recente partido oficializado de Esquerda, o MAS.

 

Diz Garcia que o Tavares - fulanizando o LIVRE numa única pessoa durante todo o texto: estamos perante um paradoxo que se reflecte a cada passagem diante de um espelho - não vem acrescentar nada de novo ao panorama da Esquerda portuguesa e que pouco o separa do BE e até do PS. Bom, apesar de achar que a virtude não está entre o BE e o PS, já não é mau que este novo partido toque as ideias destes dois partidos, é sinal que se calhar é um partido diferente dos que existem, deve ser o tal "meio da esquerda" a que o Rui Tavares aponta.

 

Continua Garcia dizendo que o Rui Tavares está a criar uma provável muleta para um governo do PS. E não tem todo o direito de o fazer? Depois questiona quais são as posições do LIVRE em relação a temas como a dívida e a troika, e diz que as respostas são similares às de, novamente, BE e PS mas acrescenta o PCP no meio desta alhada. Caramba, então mas afinal o LIVRE também já tem similitudes com o PCP? Se calhar é mesmo um partido que até hoje não existia. Pelos vistos aglutina ideias de socialistas, bloquistas e comunistas. Se isto faz sentido é que eu já não sei, mas que realmente até há aqui alguma diferença por causa do espectro que tenta abranger, até há.

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

A quem serve o populismo?

 

Em alturas de crise há quase sempre um fenómeno que ganha força e que nos entra pelos olhos e ouvidos dentro todos os dias: o populismo. Este fenómeno pode sustentar ideologias de todo o tipo, mas serve, sempre, para reforçar o pensamento único e para impor a saída que se tenta apresentar como a única razoável perante a inevitabilidade.

 

O populismo por vezes desfaz tudo quanto está dentro do "sistema" vigente prometendo uma revolução que libertará o povo para sempre, noutras ocasiões contrapõe aos argumentos que se lhe opõe ideias fortes mas facilmente rebatíveis e que apenas fazem o seu caminho e ganham o seu espaço porque são repetidas ad nauseam.

 

A Europa já sofreu com populismos vários e quase sempre com o mesmo desfecho, guerras civis ou internacionais e estados que se tornaram fortemente repressivos, aprisionando e expulsando quem pensava de outra forma. Em Portugal, o populismo apareceu quase sempre - em escala nacional - do lado da direita, e a actualidade não é diferente. Esconde-se um plano de ataque aos direitos básicos das pessoas em nome de um conto de fadas capitalista.

 

Hoje chegaram-me aos olhos dois textos que ajudam a desmascarar algumas ideias feitas sobre os partidos, os movimentos e sobre os perigos de aceitar algumas ideias simples e compreensíveis como certas. Este texto da Wu Ming Foudation e o texto de Francisco Louçã no Público de hoje, dão tiros certeiros nas máscaras do Movimento 5 Estrelas e na ideia peregrina de que as primárias nos partidos resolveriam os problemas da sua democracia interna e de melhor representatividade dos eleitores.

 

 

 

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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Um beijo de parabéns à UGT


E hoje é dia de festa na Avenida Almirante Gago Coutinho. A UGT faz 35 anos e para o assinalar promove várias acções de protesto contra as políticas deste governo, que tem piorado a vida de tantas pessoas. Ah, afinal não, enganei-me, o aniversário é assinalado no Hotel Altis com umas intervenções duríssimas de trabalhadores e trabalhadoras. Ah, afinal também não, no meio de vários representantes sindicais internacionais, falaram Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social - o tal que até diz umas coisas ponderadas, mas que duvido que as mantivesse se estivesse no governo - e Pedro Mota Soares, Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social e conhecido defensor da causa de quem trabalha. Pela tarde, num debate sobre um novo Plano Marshall para a Europa, teremos ainda o privilégio de ouvir Pedro Roque Oliveira, ex-Secretário-Geral Adjunto da UGT e ex-Secretário de Estado do Emprego do actual governo, portanto mais um grande defensor da causa de quem trabalha.

 

Depois das grandes manifestações que tiveram lugar nos dois sábados passados, há quem as critique porque deviam ter sido isto em vez daquilo, porque deviam ter terminado assim e não assado. Depois vêm os criticados criticar os que os criticaram, a seguir os criticados por terem criticado vão criticar os que os criticaram por terem criticado, a seguir cri cri cri cri, continuam os grilos a cantar. Curiosamente, na boca e na pena de muitas dessas pessoas, a sigla UGT raramente ou nunca existe. Eu também preferia não a usar, era sinal que ela não contava para nada, mas conta, e é por isso que a porrada que damos aos teclados quando criticamos outros por serem medricas, divisionistas ou não erguerem as massas, devia estar dirigida em larga escala a esta organização em que o capital se disfarça de sindicalismo.

 

Como vivemos num país eminentemente católico, o perdão faz parte do nosso discurso cultural, as segundas oportunidades estão aí para serem dadas. A UGT já teve muitas e decidiu nunca as agarrar. Ao invés de, por exemplo, já ter rasgado de vez o acordo feito com o governo e com os patrões, prefere incarnar o papel de um árbitro desvairado que mostra cartões amarelos a torto e a direito mas que se esqueceu do vermelho no balneário, e mais, quando mostra o amarelo ainda pede desculpa.


A UGT é a maior divisora da luta de quem trabalha. O que se comemora hoje é o aniversário da institucionalização da conivência com o retrocesso social e laboral, o fim de qualquer possibilidade revolucionária que ainda existisse na sociedade portuguesa na altura da criação desta coisa. A UGT foi criada para desmobilizar e para dividir uma classe e tem cumprido bem o seu papel.

 

No seu discurso, Silva Peneda disse que a UGT tem sido muito importante para os trabalhadores e trabalhadoras porque negoceia medidas que sendo más para eles, se tornam menos más através da sua intervenção. Se a UGT e o capital fossem um casal, a UGT era a metade que leva porrada cinco dias por semana mas dá muito valor aos dois em que não é espancada, e está disposta a fazê-lo durante toda a vida. E nunca deixará de ser assim: deus criou o homem à sua semelhança e tirou-lhe uma costela para lhe dar uma escrava em forma de mulher; o diabo arrancou uma costela ao capital e deu-lhe o nome de UGT. Eu não acredito nem em deus nem no diabo.

 

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Domingo, 27 de Outubro de 2013

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado

 

 

Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, um actor desempregado. Em Novembro volto à labuta. À bilheteira e sem direitos, que é para não pensar que desaperto o cinto das calças. Os humanos não passam sem pão e água e os países não existem sem Cultura. O Coelho gosta da Nini e do Lá Féria, o Costa dá praças ao Tony. Na Ajuda o cacilheiro está sempre primeiro. Portugal embarcado e emigrado. Portugal afundado e eu continuo desempregado.

 

De Bragança até Faro: corta na saúde, corta na educação, corta na cultura, corta na dança, corta no cinema, corta no teatro. E depois? Depois privatiza, privatiza filho. O Teatro S.Carlos Santander Totta apresenta! O Teatro Sonae S.João vai estrear! O D.Maria II BPN orgulha-se de apresentar: Duarte e Loureiro a caminho da Carregueira!...há coisas que só mesmo no teatro...

 

"Artigo 78.º, Fruição e criação cultural, ponto 1: Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural." Porra para a constituição...o que é que a constituição já fez por ti hoje? O que é que a porra da constituição já fez por ti alguma vez na vida? Queime-se a constituição, queime-se o código do trabalho, glória ao pai, ao filho e ao trabalho temporário!


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


E quero ainda dizer, que isto aqui, que isto aqui, é uma cambada de activistas, uma cambada de sindicalistas e uma cambada de lambões! Vão trabalhar, porra! Vão p'rá estiva 80 horas por semana, vão lavar escadas às 5h da manhã, vão ter dois empregos que é bom p'rá tosse, vão chapar massa em cima de andaimes, trabalham e ainda vêem a vista, vão servir às mesas, ficam com varizes, mas trabalham os gémeos, estão desempregados? Apanhem o cacilheiro gondoleiro. E a Luísa? Continua a subir a calçada...


Deus no céu, Soares dos Santos na terra. Pingo Doce, venha cá! Venha cá ver como se destrói a produção nacional, venha cá ver como se faz uma fundação instrumental. Pingo Doce: um litro de vinho aliena e estupidifica um milhão de portugueses. O Pingo é mais doce com a sede na Holanda, o Pingo quer ir ser ainda mais doce para o meio da Colômbia, o Pingo já é doce na Polónia do Wojtila. Pingo Doce: erva, coca, igreja e exploração, e tudo sem custos de produção.


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


E queria chamar para junto de mim Isaltino Afonso de Morais! E queria chamar para junto de mim Alberto João Jardim! E queria chamar para junto de mim Avelino Ferreira Torres! E queria chamar para junto de mim Valentim Loureiro! E queria chamar para junto de mim Oliveira e Costa! E queria chamar para junto de mim Alves dos Reis! E queria chamar para junto de mim Al Capone!


"Artigo 20.º, Acesso ao direito e tutela jurisdicional efectiva, ponto 1: A todos é assegurado o acesso ao direito e aos tribunais para defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser denegada por insuficiência de meios económicos." Alguém tire a venda à Justiça, por amor da Constituição.


"Artigo 74.º, Ensino, ponto 1: Todos têm direito ao ensino com garantia do direito à igualdade de oportunidades de acesso e êxito escolar. Artigo 75.º, Ensino público, particular e cooperativo, ponto 1: O Estado criará uma rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população. Artigo 64.º, Saúde, ponto 1: Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover. Ponto 2: O direito à protecção da saúde é realizado: alínea a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito." Ah, maldito tendencialmente! À venda neste leilão temos também um artigo de grande valor económico, um maravilhoso contrato swap dirigido à sua PPP de estimação, esqueça a lei fundamental do seu país e governe-se com artigos financeiros do mais tóxicos que há. Sabe qual é o preço certo?


Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado.


Faz-me um bocadinho de impressão que 15 pessoas por mais eminentes que sejam tenham o poder de condicionar a vida de milhões de pessoas da forma como têm”(1), a saber: O Ulrich dos aguentas, o Catroga dos pintelhos, o Ferreira do Amaral das pontes, o Luís e o Nuno Amado dos bancos, o Ulrich dos aguentas, o Salgado dos espíritos santos, o Belmiro dos carnavais, o Durão dos caldos entornados, o Pires de Lima das cautelas, o Seguro do qual é a pressa, o Ulrich dos aguentas, o Moedas dos especialistas adolescentes, o Portas dos submarinos e dos vices, o Passos Coelho das enxadinhas para trabalhar, o Cavaco dos muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito...e as pistolas do Buiça? Emigraram com ele para a Suíça. Foi ao Campo Pequeno não havia viv'alma, no Terreiro do Paço estavam umas pessoas a correr patrocinadas pela telefonia, pegou na mulher e nos filhos e toca de zarpar. Já não teve de dar o salto, mas as lágrimas caíram-lhe na mesma.


"O que é que não temos? Satisfação! O que é que nós queremos? Revolução!"(2) Hoje é outra vez o primeiro dia do resto das nossas vidas, temos todos e todas um brilhozinho nos olhos. A austeridade não é inevitável. O pensamento não é único. Eu cruzei a ponte. Pára o porto, pára Coimbra, pára Braga, pára Viseu, pára o Funchal, pára Vila Real, pára Évora, pára tudo! O Alentejo é nosso outra vez. "A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir, quando pertencer ao povo o que o povo produzir."(3) "Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar."(4) Se o ataque é brutal, a greve é geral. Salários e pensões não pagam dívidas, o empobrecimento não paga dívidas, a exploração não paga dívidas. Trabalhadores e trabalhadoras em luta contra a carestia de vida. A troika cheira mal dos pés, a troika é burra, morra a troika, morra pum! A troika é a velha, mas nós não somos nêsperas.


Spartacus morreu na cruz, a Revolução Francesa morreu na cruz, o 25 de Abril ainda está na cruz, é tempo de o resgatarmos.

"Artigo 1.º, República Portuguesa, Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária."


Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. O povo, quando estiver unido, jamais será vencido.


"Artigo 21.º, Direito de resistência: Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública." A austeridade ofende os meus direitos, as minha liberdades e as minhas garantias.


Liberdade, igualdade, fraternidade. Eu sou Spartacus. Portugal não é a Grécia e eu estou desempregado, mas resisto. A maré vai-se levantar. Eu cruzei a ponte. Não há becos sem saída. O Povo contra-ataca. Nós ou a troika?



Texto lido na manifestação de dia 26 de Outubro

(1) Fernando Ulrich, aqui há dias, demonstrando o carinho que tem pelos juízes do T.C.

(2) Revolução

(3) Sérgio Godinho, "Liberdade"

(4) Fausto, "Uns vão bem e outros mal"

Todos os artigos retirados da Constituição da Repúblia Portuguesa

publicado por swashbuckler às 10:21
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Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

21 de Outubro: Orson Welles e a troika

O dia 21 de Outubro de 2013 ficará marcado como o dia em que aconteceu uma manifestação de apoio à troika. Mas quando os jornalistas chegaram ao local cedo perceberam que esta manifestação era falsa e se tratava de uma acção de divulgação da manifestação de 26 de Outubro, uma manifestação anti-troika convocada pelo grupo Que se Lixe a Troika. Algumas pessoas e jornalistas criticaram esta acção, dizendo que não se brinca com coisas sérias e que o tiro pode sair pela culatra. Mas porque é que à falta de ética diária e violenta do governo e da troika temos de responder sempre com ponderação e lealdade institucional? Estamos em guerra, e é a da sobrevivência.


Foto


Porque é que este grupo decidiu fazer esta acção?

No dia 22 de Setembro mais de uma centena de pessoas esteve reunida em plenário e fechou a data de 26 de Outubro como mais uma data de mobilização contra a troika e o governo. Desde esse dia mais de 900 pessoas já subscreveram esta convocatória e o grupo tem tentado aparecer na imprensa para que o 26 seja divulgado. Ora o que tem havido é um bloqueio por parte de quem decide o que deve ou não ser notícia, este bloqueio foi tão grande quanto evidente: Comunicados de imprensa totalmente ignorados por vários órgãos; notícias que até divulgavam a manifestação mas cortavam o parágrafo que referia a data, a hora e o local; uma acção que incluiu uma conferência de imprensa e uma vaia ao primeiro-ministro com todas as televisões presentes, televisões essas que chegaram a ter no alinhamento dos seus telejornais da hora de jantar esta notícia e que depois, de um momento para o outro, a retiraram, as três.

 

Esta acção de guerrilha mediática atingiu os dois objectivos a que se propunha: furar este bloqueio informativo e provar que uma manifestação pró-troika convocada por 7 pessoas e com um comunicado ingénuo, ganha facilmente o espaço mediático cedido pelas empresas que controlam a comunicação social portuguesa.

 

 


publicado por swashbuckler às 13:47
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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Decimatio

Decimatio, dizimação, era uma das penas aplicadas aos soldados romanos que desertavam do campo de batalha ou se amotinavam. A pena era aplicada a todos, mas só 10% a sofriam no corpo. Os soldados faltosos eram agrupados em conjuntos de dez e, através de sorteio, um deles era apedrejado e espancado até à morte, os restantes passavam a ter rações mais fracas e passavam a viver fora do campo protegido, ao pé das prostitutas e dos criminosos e mercenários que acompanhavam e auxiliavam os exércitos.

 

 

Um dos generais que mais aplicou a dizimação foi Marcus Crassus, o carrasco de Spartacus, líder da Terceira Guerra Servil, em que cerca de cem mil escravos se revoltaram contra Roma e o seu império. Algumas teses afirmam que foi a utilização deste método que permitiu a Crassus vencer Spartacus, o medo que os soldados passaram a ter do próprio general suplantou o que sentiam pelo seu inimigo.

 

Com um sentido diferente da que lhe deu origem, a palavra dizimação é hoje usada para caracterizar uma devastação, o desaparecimento total ou parcial de algo ou de um conjunto de indivíduos. A direita convive bem quer com o sentido actual quer com o método romano, aliás, utiliza-o como forma eficaz de chegar ou de se manter no poder. Para lá chegar sacrifica internamente alguns dos anteriores líderes e seus apoiantes, para o manter sacrifica grupos de cidadãos que servem de exemplo para que os restantes se sintam afortunados e cooperem ou fechem os olhos a esse sacrifício. A direita fá-lo sem pensar muito, fá-lo porque é inevitável para a sua sobrevivência.

 

 

 

publicado por swashbuckler às 15:24
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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2013

Coincidências felizes

Declaração de interesses: sou candidato pela CDU à Junta de Freguesia de Arroios. Este post versará sobre as felizes coincidências da campanha lisboeta de uma geral e da campanha em Arroios de uma forma particular. Quem não tiver paciência para Política ou para política - conforme a relevância que lhe dão - é melhor não ler, porque não apresento soluções nem alternativas, isso deixo para outros textos e outros lugares, apenas apontarei o dedo para coincidências felizes, das que se papam à légua.

                                                                                                                                                  

 

 

Para esta campanha autárquica em Lisboa o PS e o PSD/CDS escolheram o verde dos campos, o verde da esperança, o verde de um futuro mais fértil para a população lisboeta. A propaganda é de tal maneira parecida que à primeira vista achamos que o Ruy de Carvalho apoia o PS e que a Margarida Martins é candidata pelo PSD, mas se virmos bem de perto e com atenção - com muita atenção, porque os símbolos dos partidos estão tão pequeninos que mal se notam, de certeza que foi um erro, não é vergonha - percebemos que ao contrário.

 

Calculo que esta decisão tenha sido feita de comum acordo, uma vez que no recente debate entre Seara e Costa tivemos o prazer ouvir estas duas pérolas: «António Costa disse: "Eu tenho aqui uma divergência com o Dr. Fernando Seara..." e Seara disse dos dois que são "pessoas que nas questões essenciais pensam da mesma maneira".» Se é para haver sintonia, pois que os cartazes fazem todo o sentido.


 

Outra coincidência feliz é a revista municipal "Lisboa", distribuída pela CML, só me ter chegado às mãos em Julho deste ano. Vivo em Lisboa há mais de dez anos e nunca, em nenhuma das casas que habitei, ela tinha entrado no meu correio. Este é o número 6, e está cheio de maravilhas que a CML fez nos últimos tempos. Se calhar para este número tiveram um orçamento um bocadito maior que lhes permitiu fazer uma tiragem superior, é isso, deve ter sido só mais uma coincidência feliz. Assim como o frenético mês de Agosto e de Setembro no que toca à animação da cidade, à luz, à cor, ao artifício, à folia...podiam era pagar aos artistas que fazem este estardalhaço todo, mas isso é outra história que não cabe aqui, não se insere na campanha, insere-se só na desorganização do pelouro da Cultura. Daqui a uns dias conto-vos essa...

 

 

E para acabar, digo-vos que podem ver, no Hospital do Desterro, na freguesia da Pena, agora pertencente à nova freguesia de Arroios, uma magnífica exposição sobre os 21 anos de história da Abraço, uma associação de mérito que tem lutado muito nestas últimas duas décadas. Esperem lá...mas a presidente da Abraço não é a...Margarida Martins, pois. Então e ela não é a candidata do Partido Socialista a esta mesma Junta de Freguesia de Arroios? Caramba Margarida, também não era preciso entrar-nos assim tanto pelos olhos dentro, podias ser mais comedida. Tudo bem que a Abraço até merece destaque no panorama da solidariedade em Portugal, mas era escusado, se calhar...ou então faziam a exposição em Chelas, ou em Belém, fora da freguesia a que te candidatas, não? Desculpa, deve ter sido só uma coincidência feliz...ou então é a reprodução do "corta-fitismo e programa mil festas" que os candidatos que são presidentes de junta ou de câmara levam a cabo nos meses anteriores à eleições... Não tenho nada para inaugurar? Pimbas, faço uma exposição onde mostro o mérito do meu trabalho social, e mesmo em cima dos meus eleitor...perdão, fregueses!

Tudo isto com o alto patrocínio da ESTAMO, a empresa que anda feita maluca a comprar hospitais na Colina de Santana a mando da CML para os transformar em luxuosos condomínios e hotéis de 5 estrelas para inglês ver e banqueiro comprar.

 

Ainda dizem que não há coincidências, então não há? E felizes.


P.S. - entretanto caiu mais um bocado de um prédio aqui na rua de baixo. Resultado: rua cortada desde Sábado e as pedras que caíram para o meio da estrada lá continuam. Trabalhos de remoção das mesmas e trabalhos para demolição do prédio? Nem vê-las...mas é melhor irem rápido, pelo aspecto da coisa, se não se apressam, vão ter de apanhar do chão o prédio todo...

publicado por swashbuckler às 16:32
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Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

Ah...a adolescência!

Deu-nos para isto, eu estou a rever "Freaks and Geeks", ela está a ver pela primeira vez. A ideia foi minha, ela achou piada ao primeiro episódio. Tinha visto a série na altura quase certa, aí com uns 20 anos, revê-la 10 anos depois dá-me nostalgia e vontade de não ter carta de condução.

No fundo, quer na adolescência quer na idade das trevas, a necessidade é a mesma: conhecer o teu inner self para agradar aos que te rodeiam e para seres o "máiore da cantareira", claro que nos E.U.A. eles abusam um bocadinho, andar na escola com o fatinho de cheerleader o dia todo não é muito saudável... A diferença é só uma, passamos de agir para sermos aquilo que os outros esperam de nós, para agir para sermos aquilo que achamos que queremos que os outros esperem de nós. Complicado não é? Pois, é a idade das trevas.

 

O que vale é que a Super Bock tem praticamente o mesmo sabor.

 

publicado por swashbuckler às 14:47
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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

Os atrasos da Revolução

Às vezes pergunto-me porque é que a Revolução ainda não aconteceu, às vezes respondo-me que é porque quase ninguém que a anda a tentar fazer chega às horas certas aos compromissos.

 

"A disciplina como forma normal e natural de actuação manifesta-se nos actos quotidianos, para os quais pode haver normas estabelecidas, mas pode também não haver orientações ou directrizes.

Um exemplo é a pontualidade.

É uma regra ou princípio e, mais que regra ou princípio, é bom que seja hábito.

 

Não se trata de questão secundária. Trata-se de uma questão que acaba por decidir do rendimento, do andamento e da execução das tarefas, da eficácia da actividade e do próprio estilo global do trabalho do Partido.

A falta de pontualidade, seja nas reuniões seja na execução de qualquer tarefa marcada com prazo, pode pôr em causa o trabalho de muitos outros camaradas e a própria realização de uma tarefa.

 

Quando a falta de pontualidade se transforma em costume e prática generalizados e tolerados, quando, mesmo no que respeita às horas de começo do trabalho, o atraso passa a ser sistema, alguma coisa vai mal no Partido e o estilo é gravemente comprometido."

 

Álvaro Cunhal, in "O Partido com paredes de vidro"

publicado por swashbuckler às 17:38
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